segunda-feira, 15 de março de 2010

para entender

e daí que terminou o final de semana e hoje é segunda-feira. de novo.

não foi a primeira e nem será a última vez. e quando falo disso, todo mundo tem uma reação brava e assustadora. te chamam de boba, besta e te mandam calar a boca. mas é isso mesmo: eu tenho a nítida impressão que vou morrer jovem. jovem assim, próxima aos 28, 30 anos.

não acho isso horrível e nem trágico. acho normal. todo mundo morre. você vai morrer. pode ser daqui a 5 minutos, pode ser daqui há 55 anos. aprenda a viver com a única realidade que é justa e honesta com você.

e vivendo com essa sensação (que não é macabra, relaxa...), eu começo a "planejar" a minha morte. várias pessoas importantes para mim já morreram. a maioria delas de morte morrida: doença, velhice, 'macambuzisse'... e geralmente essas mortes sempre são as mais desejadas, quando pensamos no nosso fim.

para mim, não tem história melhor do que a morte do meu avô materno.
quando ele morreu, eu devia ter uns 12 anos. minha mãe ainda escondia de mim o mundo cruel e nessa época eu ainda tinha meu fantástico mundo, por isso, não posso garantir total veracidade nessa história.

o alfredo era um velho português muito turrão. daqueles com a voz grossa, reclamão, bigodudo, sempre com a cara fechada. mas para transformá-lo, bastava um mês de clara em sua vida (metida). minha avó dizia que o melhor alfredo que ela conhecia, era aquele que me acompanhava nas férias. que contribuía para as minhas cáries dentárias e para o meu leve aumento de peso no início do ano letivo. o alfredo turrão que todos diziam, eu só conhecia em raros momentos que o acompanhava na padaria, pela forma com que ele tratava as pessoas, bem bravo. mas sempre achei que aquilo era coisa de adulto e que provavelmente quando eu crescesse, teria que fazer igual. comigo ele era diferente. era amável, carinhoso e sempre me dava o pirulito da chiquinha. e quando chegava a hora do comercial na tv, que não passava nada (cidade de interior), ele vinha com seu violão pra tocar todas as minhas musicas preferidas.

o último ano que passei férias com ele, foi diferente. dessa vez, ele tinha comprado uma piscina de lona pra mim. imagina, eu com 10, 11 anos, com uma piscina de lona inteira SÓ pra mim. foi uma das melhores férias da minha vida. uma baita despedida.

voltei para brasília. sem piscina de lona, sem alfredo e com vários livros novos os quais, eu odiava.
perto do meu aniversário, dia 23 de março, recebemos um telefonema em casa, por volta do meio-dia. era o tio cláudio. voz baixa, rouca e trêmula. pediu para falar com a minha mãe. eu já percebi que tinha alguma coisa errada.

minha mãe desligou o telefone com os olhos marejados. meu pai pediu para eu ir pro quarto estudar. nessa hora eu fiquei sem entender, meu pai nunca me mandava estudar. aí sim constatei que tínhamos um problema na família.

não deu 5 minutos, meus pais chamaram a mim e ao meu irmão para conversar na sala. e explicaram que o vô alfredo tinha falecido. não consigo recordar muito bem as palavras exatas, mas tiveram todo um cuidado para contar e nos preparar para a primeira grande perda de nossas vidas.

lembro que a dor que eu senti não foi por mim e sim pela minha mãe, que estava completamente arrasada e transtornada. não conseguia sentir tristeza, porque a história que nos foi contada por eles é simplesmente fantástica.

"o vovô alfredo estava enchendo o jarro de água quando pediu para a vovó continuar, porque o barulho da água deu vontade nele de fazer xixi. em seguida o vovô foi ao banheiro e morreu lá, sentado na privada."

imagino eu, com as calças arriadas e um baita sorrisão de alívio.



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