quarta-feira, 17 de março de 2010

potoca.

tenho a sensação que, para suavizar nossa rotina precisamos de macetes. macetes esses, que confortem a ação repetitiva e traga um pouco mais de emoção às nossas vidas.

sempre fui muito craque nisso. de alguma forma, crio diariamente motivos para rir do nada. ou aprender alguma coisa diferente e banal, como por exemplo, como funciona minimamente um microondas.

a primeira vez que me lembro de dar um tapa na rotina, foi aos 9 anos.

ganhei minha primeira bicicleta. não imagine você que vou contar como foi o "start up" entre andar com rodinha e sem. quando ganhei, já sabia fazer isso (tinha a bicicleta do meu irmão para treinar).

rosa choque. tinha umas franjinhas de plástico em cada lado do guidom e uma cestinha branca à frente. linda de morrer. podia fazer inveja em qualquer amiguinha da quadra, tinham várias que adorariam ter uma bicicleta igual a minha. mas não. tinha apenas um interesse naquela bicicleta.

mantendo a tradição do meu fantástico mundo, conseguia ver beleza em coisas que muita gente achava simples demais. e com isso, acabei contando várias mentirinhas na escola, querendo ser um máximo para todos os meus coleguinhas. doce ilusão.

contava mentiras do tipo "meu pai é taxista". ou, "ah, mas eu sou filha da empregada e a patroa que paga a escola". também tem essa, "moro com a minha avó. meus pais fugiram pro méxico".

colava até o dia da reunião semestral de pais e mestres. numa dessas, quando minha mãe voltou pra casa, levei uma taca daquelas. ela ficou furiosa perguntando que história era aquela de taxista e méxico. eu me rachei de rir. pronto. castigo não-sei-quanto-tempo, sem meus lápis coloridos e minha fita k7 da mara maravilha.

tudo bem. entendido o recado. não podia mais inventar a minha estória na escola. pedi a tal bicicleta de presente de Natal.

menina comportada, bicicleta na "garagem".

aí sim, comecei a minha estória de verdade: todo dia pela manhã, encarnava meu espírito taxista. saía pontualmente às 10h e pilotava pela quadra toda, imaginando sempre uma pessoa diferente na minha garupa. pegava uns atalhos perigosos, subia, descia e até caía! era simplesmente demais! carreguei um angolano que ficou apaixonado por mim depois. e também conheci o chris o'donnel, que em passagem pelo brasil, sentou na minha garupinha - juro pra você.

agora não era potoca. e minha vida dava adeus à rotina. e eu continuava feliz com meus hábitos sem sentido.

todo mundo tem uma capa de super-herói invisível. pode prestar atenção.

(um salve pra galera de massachusetts!)

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