domingo, 25 de abril de 2010

velha do quarto andar

desde o dia que descobri o que significava a palavra estressada, a minha vida mudou. pois é.

1995, 314 sul, bloco F, apartamento 506.
acho que quando eu nasci, pedi para ser levada e deu eco. acabei vindo três vezes levada. meu irmão nem tanto, sempre foi o 'centrado', se é que podemos dizer assim.

por conta da nossa pouca diferença de idade (1 ano e 1 mês), acabávamos por nos enturmar com a mesma galerinha. e sempre uma galerinha do mal. a gente tinha em casa, duas gavetas grandes (pelo menos naquela época parecia bem grande) de peças de lego. montávamos verdadeiras cidades com aquelas pecinhas e até mesmo aeroporto. a imaginação era infinita na hora de inventar histórias.

em um desses finais de semana intermináveis para a criançada, juntamos alguns amigos para a farra. era sempre um momento histórico quando recebíamos amiguinhos para dormir lá em casa. veio a camilinha, representando o time das meninas e o andré veloso representando o time dos meninos.

a hora mais esperada da noite, era aquela em que nos sentíamos completamente independentes. os pais foram dormir, agora era questão de 30 a 40 minutos pra gente poder começar a brincar com as gavetas ou com a recém conhecida internet (nos meandros de mirc e até mesmo icq).

vamo lá, galera. pais dormindo. quarto só nosso. 4 moleques. chegou o momento de dominar o mundo, mesmo que por poucas horas. até então não cogitamos a possibilidade de morarmos em um apartamento. logo se conclui - apartamento com vizinhos. ou melhor, vizinha. da pior espécie: velha, coroca, perturbada e é claro, estressada.

no apogeu do nosso oba oba da madrugada, com quase uma cidade montada sobre nossos pés e sobre a cabeça de nossa vizinha, escutamos o aviso: batidas no nosso chão com cabo de vassoura. até aí, tudo bem. belo pedido de silêncio - educadamente. aquilo não nos bastou. mais pareceu uma afronta, afinal de contas estamos nos divertindo, com o mundo que sonhamos e idealizamos - sai pra lá, vizinha!

ignoramos o soar daquelas cutucadas e mesmo na tentativa de manter o silêncio, o êxtase e a independência eram tão grandes, que o autocontrole foi por água abaixo.

não mais esperávamos, ouvimos um barulho estrondoso, bem mais perto de nossas cabeças dessa vez. a velha se emputeceu e levou o cabo de vassoura até a nossa janela. naquela época (e até hoje) os apartamentos possuem uma grade de ferro como proteção. imagine você o barulho, às 4 da matina, de um cabo de vassoura correndo sobre as grades da sua janela.

os 4 moleques ficaram em um alerta muito assustador. sentimos que era hora de dormir. os corações pulavam feito cavalos furiosos e quase imaginamos uma guerra nuclear para nossa humilde cidadezinha de lego.

na hora em que nos demos conta de que o estrondo era apenas um cabo de vassoura e um protesto contra o barulho, meu irmão dotado de uma inteligência bastante significativa, registrou sua indignação com a derradeira frase: "essa velha é uma estressada!!!!".

mais assustados ficamos com aquela nova palavra que adquirimos para o nosso limitado vocabulário digno de 4a série. os créditos ficam por conta do seu omissor, que diferente de nós, não quis deixar barato.

preparamos uma vingança para o dia seguinte.

tudo planejado. tio ronald mc donald e tia maria helena no trabalho. papel branco, caneta, habilidades manuais e disposição.

depois de pesquisarmos no dicionário a palavra estressada, achamos super coerente presentear a nossa vizinha do quarto andar com um elogio à altura de sua sanidade mental. fizemos 10 aviõezinhos de papel, o suficiente para podermos errar o alvo - a janela de baixo. escrito em cada asa desses aviões, vinha o entitulado: velha estressada.

nossa missão foi um verdadeiro sucesso. conseguimos acertar a marca de 7 aviões, ou seja, velha estressada 7 vezes. passamos uma manhã digna de verdadeiros reis, felizes, amados e vitoriosos.

e isso tudo para apenas concluirmos que estressados todos são. menos as crianças, que conseguem criar um mundo fantasioso e esse mundo ser respeitado até por uma velha cheia de varizes e artrite.

o final foi feliz pra todo mundo. quer dizer... menos pra minha mãe que teve que discusar sobre a educação que dava aos seus filhos, quando a velha apareceu lá em casa com os 7 aviões em mãos.

rodamos no castigo, felizes por mais uma palavra compondo nosso dicionário infantil.

Um comentário:

  1. Ironias da vida à parte, estou eu aqui lendo um texto sobre estress às 4 da matina, depois de passar 3 horas e meia trancado pra fora do apartamento (sem blusa, com o termômetro marcando algo em torno de 16 graus) por causa de uma chave emperrada do lado de dentro e ainda pagar um valor simbólico de meros 80 mangos pro chaveiro.
    Sem contar o detalhe irrelevante de que trabalho às 7, nada muito complicado, apenas controlando alguns aviões, nos quais eu teria um imenso prazer de escrever em letras garrafais "JOEY ESTRESSADO".

    Mas, sinceramente, isso já não me tira mais do sério. Na verdade é só mais uma dessas noites em que o poste apaga quando eu passo e que acabam virando outra história para ser contada aos meus vindouros netinhos levados³.

    ResponderExcluir