sexta-feira, 9 de julho de 2010

meu pintinho amarelinho

meus caros, já tive um pintinho amarelinho.

bela manhã de sábado, verão de 1990.

eu era uma menininha muito faceira. meio gordinha e muito loirinha, daquelas simpáticas e espertinhas, que todo adulto adora. não é prepotência não, eu era assim mesmo. depois de crescida, minha mãe confessou que morria de medo de me sequestrarem, tamanha a minha habilidade precoce com o ser humano.

sem mais delongas, vamos ao pintinho.

na tal manhã de sábado do tal verão, fomos passar um dia na recém inaugurada chácara do tio gabriel. o que eu mais gostava nessa história era a sua mulher, que também se chamava clara. para mim era um máximo conhecer uma adulta com o mesmo nome que o meu!

mas isso passou despercebido quando a farra mudou de nome. a onda do momento era espionar a galinha chocando os ovos. isso foi rápido, a danada da galinha devia ter o rabo quente. chocou 5 ovos com pintinhos amarelinhos daquela espécie mais fofa do mundo.

eu praticamente esperniei. pulava de alegria vendo aqueles negocinhos coloridos tentando andar. insisti, insisti e insisti. venci meu pai pelo cansaço (essa sempre foi a minha melhor tática, o cansaço), e peguei um pintinho. com a aquisição em mãos, começava a mirabolar planos e razões para convencer meus pais de levá-lo para casa. com ele, a vida parecia tão mais feliz, tão mais... amarela.

dito e feito, tudo amarelou de vez. não sei ao certo o que aconteceu, afinal de contas, já se passaram 20 anos e minha memória não é lá essa coca-cola toda. mas depois de muito beijar, apertar e acariciar o tal do pintinho amarelinho, um certo momento reparei que ele não se mexia mais. nada, nenhum tremiliquezinho. não piava mais e os olhos pareciam vagos. tentei "reanimá-lo", no meu mais medíocre jeito infantil de ser. nada, nenhum sinal vital.

depois de horas andando pra cima e pra baixo com as mãozinhas fechadas (como se escondesse alguma prova de algum crime), chegou a hora de ir embora. ou seja, chegou a hora do meu desespero. teria que contar pro papai que matei o pintinho sufocado, o tio gabriel acabaria com a amizade deles e meu pai me odiaria para sempre (nasci com o hormônio máximo do drama).

tentei disfarçar muito, mas minha experiência não permitiu. quando abri as mãozinhas, o papai teve uma reação totalmente inesperada. na hora que reparou na minha cara de desespero e viu que o pintinho não tinha mais vida, soltou uma baita gargalhada - bem ao seu estilo, aaaaalta e longa.

na hora fiquei meio sem entender, mas a princípio, rolou um alívio. se ele tá rindo, não deve ser tão ruim assim. pelo menos percebi que não seria presa para sempre no quarto, tendo como punição meu vizinho de cama e peidorreiro, pablo henrique.

após a longa e alta gargalhada "à la" tio ronald mc donald, o papai resolveu me explicar que matar pintinhos sufocados era a coisa mais normal do mundo e que eu podia ficar sossegada. e ainda completou! disse que já tinha matado vários pintinhos na vida, e que comigo seria assim também.

claro que não foi, né? ele nunca mais me deixou chegar perto de bichinhos pequenos (claro que discretamente). mas mesmo assim, teve a arte de me livrar de um trauma. belo papai o meu.

mas o tal do pintinho amarelinho, tadinho... que coza triste. rezo por ele até hoje, onde quer que esteja.

será que tem um paraíso exclusivo para pintinhos amarelinhos?

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